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VOCÊ C/CERTEZA JÁ VIU OBRAS DELE POR AÍ12/07/17

Nascido em Ouro Preto, Thiago Alvim está colorindo os muros de BH

Fã da arte de rua descobri os primeiros "Alvins" pertinho de casa, na avenida Bandeirantes. A partir disso, comecei a acompanhá-lo (virou uma brincadeira minha e do meu namorado "bater-Alvins" pela cidade) na vida real e no mundo virtual. Quando tive a primeira chance de ter um "muro próprio", na primeira edição da CasaND, só lembrei dele atráves do quartoamado, galeria que o representa, convidei Thiago Alvim  para fazer o que quisesse com a parede da varanda da redação. E ele fez, passou dois dias enchendo o espaço de cores, formas e texturas. Mineiro de Ouro Preto, Alvim tem apenas 28 anos e ficou imaginando onde estará daqui a um tempo! Vamos ao papo!

Thiago em ação no seu ateliê

Natália: Eu adoro procurar "Alvins" pela cidade... onde está o último?

Thiago Alvim (TA):  Eu estava guardado aqui dentro do ateliê. Voltei de viagem no fim do ano e fiquei off, enfurnado, sumi um pouco das ruas para dedicar meu tempo a outros projetos, atualmente sigo a minha produção no ateliê. Estou pintando desde o começo do ano, não parei nem um dia sequer. Comecei fazendo um painel na Chapada (Diamantina), abrindo os trabalhos do ano em boa frequência, fiz também uma tela aqui em casa e o projeto do Galba. De volta às ruas, pintei na Nossa Senhora do Carmo, lá no alto, um muro amarelo, um pouco abaixo do Ponteio

Natália:  Vimos o projeto do Galba até na BBC, muito bacana. Como foi?

TA: Foi um projeto lindo, uma vivência de uma semana no Galba Veloso. A gente pintou o setor feminino. Eram 10 artistas de rua e a iniciativa foi do Helder Cavalcante. Por uma semana a equipe se dedicou a dar uma nova cara aos paredões do pátio da enfermaria feminina, que acolhe mulheres em situação de crise. Estavam lá também Binho Barreto, Baba Jung, João Maciel, Gabriel Dias, Thiago Mazza, Clara Valente, Priscila Amoni, Helder Cavalcante e DMS.

Natália: Voltando às ruas: Como funciona, você escolhe um muro e vai?

TA:  A rua é meu tesão, todo o tempo que tenho sobrando vou pra rua. Inclusive a pergunta da BBC sobre como foi pintar com os “loucos” eu respondi fácil. Estou na rua há 10 anos, louco na rua tem muito, temos que lidar com eles o tempo todo. Quanto ao muro, existem situações distintas, cada caso é único. Tem aqueles que olhamos, escolhemos e depois voltamos. E tem também os autorizados, que são mais tranquilos. Como o caso do projeto Telas Urbanas (já viu esse mural que fica na entrada da avenida Antônio Carlos para o Mineirão?), que foi super tranquilo porque era da Prefeitura, fui contratado consequentemente era autorizado. E tem aqueles quando a gente junta os amigos e encontra para pintar. Aí entra no carro e vai a procura. Com a turma do quartoamado pinto muito com o Baba (Jung). Nosso trabalho dialoga bem, não que com os outros artistas não exista um diálogo, mas já temos uma linha de pensamento semelhante na pintura mural. Porque pintar tem que ter empatia é igual sair pra dançar, se você não tem afinidade, não rola.

A famosa cabeça!

                  

Natália: Quem vê seu trabalho hoje pensa nas formas orgâncias que lembram plantas e na textura, que já ouvi descreverem como uma "pelúcia", mas tem um personagem anterior, que lembra um homenzinho, certo?

TA: O cabeça foi feito para ser rápido, de cinco minutos a uma hora no máximo. É pintura ilegal na maioria das vezes, digo, quase nunca possuo permissão para fazer, uma questão de essência, o que gera mais emoção na execução e torna a ação mais interessante e estimulante. A maioria das obras de rua têm esse risco da polícia e da interrupção. No caso deste personagem a ideia é ser massivo, estar em vários lugares. A cabeça significa "estive presente", ela fica como um rastro de presença, a cabeça é de onde brotam os pensamentos, e só pensamos no presente. 

Natália: A gente vê muito o seu trabalho na estrada para Ouro Preto, como é isso de se espalhar por aí? 

TA: Como sou de lá há muitos mesmo, mas tem no Brasil inteiro. Todo lugar em que eu passo, deixo uma. Tem no Rio, no Ceará, em Ouro Preto..... Comecei fazendo uma personagem (que não é o cabeça), mas tudo depende do meu estado de espirito, a única distinção clara é o tempo mesmo e o cabeça nasceu para que eu fosse rápido, Eu não queria usar linguagem da letra do grafite, queria algo mais tribal, que é de onde eu vim, sabe? 

Natália: E como é a recepção do público, quando está em ação, e, em especial, a da polícia?

TA: Eu só fui pego uma vez, nesses anos todos. Se o policial for gente boa, ele libera. A polícia quase sempre vê e passa batido, entende que estamos trabalhando, mas geralmente tem denúncia e denúncia não tem saída. Esse policial veio e falou que tinha gostado do trabalho, mas era denúncia e teve que me parar. Eu expliquei que era artista que estava trabalhando, que não era pichação.. e no fim deu certo.

Natália: A rua é a paixão, mas paga as contas?

TA: A rua vem como jogo entre amigos, mas só quando a gente tem material e está com as contas pagas. Então a maior renda vem mesmo das pinturas de murais e quadros. Atualmente eu digo que sou muralista ou artista plástico. A rua para mim é um outdoor, ela me divulga para o mercado, é a minha paixão.  

Natália:  E quando os muros estiverem saturados, imagina outras possibilidades pela rua?

 TA: O território urbano é saturado por "natureza". Saturado de tudo quanto é forma de publicidade! Os muros, muitas vezes representam o medo, limites, uma tentativa de "segurança". Pra nós que temos um certo tesão em pintar na rua, os muros se transformam em suportes, espaços onde podemos, ou não, deixar nossos rastros. Nossa sociedade caminha cada vez mais para um sistema baseado no medo. Se continuar assim, muros não faltarão! Mas fantasiando esse acontecimento, talvez ocupar espaços onde quase não se tem vestígios de habitação humana. Lugares abandonados pelos interiores desse nosso país... ou mundão. Esses lugares oferecem uma outra relação com a expressão artistica. Nem sei se posso usar o termo pintura nesse caso. Mas se não houver também esses lugares, a adaptação e a efemeridade vão ser elementos na nossa mochila pra seguirmos nos comunicando com as cidades. Mas só vivendo isso pra saber mesmo como surfar num mar de saturação.

Obra que fica no viaduto da Antônio Carlos

 Natália: Tem planos de futuro? Pode ser algo idealizado ou bem irreal... 

TA: Olha, sou um cara sonhador! Tenho muitos desejos! Um deles é a vontade de pintar o mundo todo, sabia? Desde lugares onde esse tipo de manifestação artística transborde nas veias da cidade, até aqueles vilarejos onde nunca se viu esse tipo de arte. Desfrutar desse planeta oferecendo o que tenho na bagagem interna. Mas, sinceramente, atualmente eu tenho me preocupado mais em estar presente e dar conta das minhas atividades frescas do que planejar muito o futuro! Acredito muito que a qualidade de presença, consequentemente, trás bons frutos e planos que nem mesmo nossa criatividade consegue bolar. Afinal, só agora conseguimos imaginar/sonhar um futuro. A fé em mistura com a ação é um motor ativo por aqui.

 

NATALIA DORNELLAS

FOTOS THIAGO ALVIM / quartoamado / DIVULGAÇÃO

 

 



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