GENTE

C/A PALAVRA LEOPOLDO GURGEL12/04/18

Cidade ganha curso técnico de cenografia, iluminação, sonoplastia e produção

Talentoso e precoce Leopoldo Gurgel é um nome da jovem geração do fashion pra ficar de olho. Nascido em BH, ele passou a infância em Itabirito, formaou-se em 2010 pela FUMEC, mas seu “flerte” com a moda começou bem antes da faculdades. Seu trabalho fez o olhos da imprensa mineira brilhar naquele ano, foi um dos mais comentados daquela leva de novos talentos. De lá pra cá não parou, foi o responsável pelo estilo de várias marcas conhecidas, atuou como stylist, se envolveu em trabalhos artistiscos e agora está em um novo momento da carreira.

Atualmente ele é um dos nomes por trás do Centro Técnico de Produção da Fundação Clóvis Salgado, o CTP e foi o grande responsável pelo empréstimo do acervo do nosso editorial aqui. Na fundação, vem atuando como propositor e elaborador das novas políticas de mudança física do CTP, como a democratização do acesso ao acervo, a criação da escola de Tecnologia da Cena e a expansão do Centro de Formação Artística e Tecnológica (CEFART). Um dos agentes dessa audaciosa guinada proposta pela atual administração da Fundação Clovis Salgado, Leopoldo conversou com o site. 

Leopoldo Gurgel é o nosso entrevistado da vez

 

Site ND: Queria que começasse contando de você e suas experiências profissionais?

Leopoldo Gurgel (LG):  Minha trajetória na moda começa muito antes da formação acadêmica. Meu primeiro trabalho foi no setor comercial da saudosa marca infantil Fruto da Fruta, da empresária Maria Alice Vaz. Depois trabalhei no estilo de algumas marcas, dentre elas a Ave Maria, do estilista Zepa Lima

Durante a graduação experimentei outras áreas de atuação dentro da moda, e uma delas foi o Styling. Trabalhei diretamente com Gloria Kalil por um longo período desenvolvendo o book de tendências da FIEMG e produzindo e assinando editoriais para seu site, o “Chic”.

Quando me formei, em 2010, meu trabalho chamou atenção de diversos profissionais e, imediatamente, foi publicado na revista Marie Claire, o que me deu visibilidade naquele momento.

Neste mesmo período, em resposta ao meu trabalho de graduação, fui convidado por Ronaldo Fraga para ser seu braço direito no estilo da marca. Lá tive uma experiência mais ampla, pois não tratávamos somente de vestuário, mas do design como um todo.

Após esse período, continuei atuando no estilo de marcas mineiras, mas também com styling e produção executiva em parceria com o genial e generoso Zeca Perdigão, e até me arrisquei na área de curadoria e expografia de artes plásticas, na exposição da genial Angélica Adverse, na Casa do Baile.

Mais recentemente, fui convidado por Sylvia Klein e pelo CCBB-BH para assinar o figurino de uma série de shows  em comemoração ao aniversário da casa em que o Caffeine Trio recebia grandes nomes da música brasileira, como Elza Soares, Arrigo barnabé e Maria Alcina.

 Logo após este trabalho, tendo me especializado em Direção Criativa, fui convidado pela empresária Nádia Kassab e o designer Albino Papa para assumir o estilo e compor a equipe que elaborou o branding da Meniax.

Em paralelo, passei a assinar com Liana Fernandes o estilo da Lume que, no último mês, lançou sua coleção de inverno sobre os ipês mineiros no cenário urbano, a qual assino.

Site ND: O que é o Centro Técnico de Produção da Fundação Clóvis Salgado (CTP) e como chegou lá?

LG: Em novembro de 2016 fui apresentado ao Presidente da Fundação Clóvis Salgado, Augusto Nunes Filho, como um dos profissionais que poderia contribuir para o aprimoramento deste espaço de tamanha interdisciplinaridade. Naquela ocasião, tivemos uma conversa muito produtiva e empolgante a respeito das possibilidades de dar mais acesso à um espaço e um acervo que são públicos. No entanto, eu tinha acabado de assumir o estilo e a elaboração do branding da Meniax e não foi possível compatibilizar os dois trabalhos, pois ambos necessitavam de dedicação total.

Em novembro de 2017, um ano depois, o convite tomou forma, pude aceitá-lo e o fiz com muita satisfação, pois a Fundação Clóvis Salgado (FSC) é a principal referência cultural e o principal motor de grandes montagens em Minas Gerais, reconhecida como um dos principais centros de produção de óperas no Brasil, que movimenta a cadeia produtiva do setor em montagens que reúnem gestores, produtores, músicos, curadores, maestros, bailarinos, técnicos, cenógrafos, diretores artísticos, figurinistas, entre outros profissionais.

O CTP - Centro Técnico de Produções – é o espaço onde esses profissionais elaboram, produzem, guardam, mantém e preservam cenários, figurinos, adereços e elementos cênicos das montagens artísticas realizadas pela Fundação Clóvis Salgado.

O CTP existe desde 1971, quando foram iniciadas as produções operísticas e de balé no Palácio das Artes. A partir de 2004, todo o acervo foi transferido para Marzagão, para suprir a demanda de produção e de espaço, sob a coordenação do Mestre Raul Belém Machado. Até hoje, o CTP se mantém no mesmo formato original, ocupando mais de 2.000 m2, divididos em três galpões da antiga Fábrica de Tecidos, em Sabará-MG.

Site ND: O que você faz à frente do CTP?

LGMeu trabalho é gerir este espaço e este acervo. No momento, participo da construção do plano de gestão do CTP e de todo seu acervo para os próximos 20 anos, em conjunto com nossa equipe. É um importante e fundamental passo para a preservação desse acervo e da memória da FCS.

Site ND: Conte um pouco do famoso acervo do Marzagão (o galpão é o sonho de consumo de todo mundo que trabalha com figurino, moda, cenário e arte).

LG:O acervo salvaguardado no CTP compreende basicamente figurinos, adereços, cenários e elementos cênicos, projetos, croquis e maquetes oriundos das produções artísticas e pedagógicas da FCS. É parte importante do extrato do fazer artístico que é produzido em Minas Gerais.

Nele se encontram réplicas e releituras de figurinos de diferentes épocas que perpassam dos primórdios da civilização aos dias atuais. Cenários colossais que reproduzem os palácios da China imperial aos guetos americanos da década de 1920, do antigo Egito às florestas geladas de um futuro fantástico e inimaginável.

É, de fato, um acervo muito rico, não somente para as artes cênicas, mas, também, para estudiosos e profissionais de moda, arquitetura e arte de um modo geral.
 

Site ND: Quantas peças o acervo possui?

LG: Pense que são quase 50 anos de franca produção de espetáculos, haja visto que a primeira montagem de uma ópera na FCS foi La Traviata, que estreou em 1971. Não é pouca coisa! Curiosamente, uma nova montagem de La Traviata está sendo produzida para estrear em abril.

Estima-se que o acervo tenha cerca de 12.000 itens distribuídos em cerca de 4.000 figurinos, 2.000 adereços, 1.000 elementos cênicos e 54 cenários. Desde janeiro de 2018, há uma verdadeira operação de catalogação, realizada por uma equipe interdisciplinar, composta por estudantes, especialistas e mestres em Conservação-Restauração de Bens culturais, Biblioteconomia, Museologia, Arquivologia e Design de Moda que conseguiu contabilizar esses números.

A equipe que cuida do acervo do CTP

 

Site ND: Como é feita a conservação de tudo isso?

LG: O processo é complexo e muito peculiar, para cada tipo de acervo. Imagine que temos uma variedade de materiais que vai de papel a isopor, espumas e plásticos, passando pelos mais variados tipos de madeiras e metais, além de couros e tecidos em suas intermináveis estruturas e tipologias.

Site ND: Existe uma história que o Marzagão vai acabar e o CTP vai ter um galpão próprio atrás do Parque Municipal. Já podemos falar em datas?

LG: A atual administração da FCS entende que o CTP pode contribuir não somente produzindo e salvaguardando seu acervo artístico, mas dando acesso a companhias artísticas de dentro e de fora do estado, democratizando o uso de seu acervo, bem como aproveitando melhor suas oficinas de costura, adereços, serralheria e marcenaria, oferecendo formação profissional nessas áreas.

Em consonância com as escolas de teatro, música, dança e artes visuais já existentes no CEFART - Centro de Formação Artística e Tecnológica – que é uma escola pública de arte, a FCS elaborou proposta de criação de um curso em nível técnico denominado “Tecnologia da Cena”, que habilitará o profissional em figurino, cenografia, iluminação, sonoplastia e produção.

Para tal, a FCS recebeu do Governo do Estado de Minas Gerais um prédio de mais de 3.000 m2, distribuídos em 4 andares, situado em local privilegiado, em frente ao Parque Municipal e ao lado da Serraria Souza Pinto. Este prédio abrigará não só o CTP, seu acervo e oficinas, mas também a escola de Tecnologia da Cena e a tão necessária e aguardada extensão do CEFART para os outros cursos.

Neste momento, estão sendo elaborados projetos de readequação do espaço com a equipe do arquiteto William Abdalla. Este espaço será referência no que diz respeito a acervo e formação em Tecnologia da Cena. Ainda não há uma data definitiva. Tudo vai depender da finalização dos projetos.                                                                                                                    

Site ND: Como vai funcionar? Será aberto ao público? 

LG: Sim. Não somente a estudantes e profissionais de moda para pesquisa de tecidos, acabamentos, técnicas e modelagens de época, como para pesquisadores em geral e de áreas correlatas, mas principalmente, a companhias de teatro e dança e artistas independentes, afim de facilitar e impulsionar a produção artístico-cultural de Minas Gerais e do Brasil.

 

Uma prévia do que será o projeto!

Site ND: Qual é o seu papel em tudo isso?

LG: Sob supervisão do diretor do CEFART, Vilmar Pereira de Sousa, e em conjunto com uma série de profissionais que compõem a diretoria do CEFART, gerencio o processo da mudança física do CTP e a ampliação do acesso ao acervo.

No serviço público, assim como na moda, prevalece a atuação em conjunto. O trabalho de um, depende do trabalho do outro e todos se complementam, trocando conhecimentos, enriquecendo os resultados em experiências coletivas.

Site ND: Em meio a tudo isso, como fica sua relação com o trabalho de estilista. Você continua exercendo? Sobra tempo? 

LG: Quando aceitei o convite da FCS estava assinando o estilo da Lume e precisei me desligar momentaneamente da prática do estilo para me dedicar integralmente a este projeto tão importante e grandioso, pois necessitava que eu me voltasse inteiramente a ele nesse período de elaboração.

O trabalho de estilista, o lugar do criador, do diretor criativo, é inerente ao que estou vivendo neste momento e aqui também está sendo exercido, dia após dia, das mais variadas formas.
Este trabalho, para mim, está sendo uma espécie de incubadora ou decanter, aquele objeto que desempenha papel fundamental para aflorar as melhores características do sabor e aroma do vinho. Rsrs... 

 

#olhonele

 

JR MENDES (DA REDAÇÃO)

FOTOS PAULO LACERDA E GUSTAVO MARX




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