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PECULIARIDADES DA VIDA NA ROÇA #DAHORTA08/01/18

Euler Andrés fala sobre 'os valos'

A vida na fazenda tem suas peculiaridades. Como esta coluna se propõe a levar vocês para uma experiência na roça, vou falar de algo que você já viu com certeza, mas talvez nunca tenha prestado muita atenção: os valos.

Construídos no século XVIII, os valos são trincheiras de 1,5m a 2m de profundidade e largura, circundadas por árvores nas duas bordas. Junto com os muros de pedra e as cercas de madeira, também chamadas tapumes, constituíam as técnicas difundidas no Brasil colonial para delimitação de propriedades, separação de pastos e plantações. A vantagem evidente dos valos é a economia de material: não requerem nenhum recurso, a não ser a mão de obra para a retirada de terra.

Essa trincheira rural ainda separa no tempo as eras pré e pós-Revolução Industrial. Claro que o arame farpado produzido na Inglaterra demorou mais de 100 anos para se tornar popular no interior do Brasil. Enquanto isso, durante todo o século XIX, ainda se construíam valos, muros de pedra e tapumes. Esses últimos se popularizaram no semiárido com o uso do angico e da aroeira do sertão, madeiras de alta durabilidade: toneladas e mais toneladas de árvores foram derrubadas para que se cercassem os vizinhos, as vacas, as cabras, os jegues, os porcos e as galinhas.

No sudeste, os valos ainda permanecem nas regiões que foram ocupadas após a corrida do ouro do século XVIII: arredores de Ouro Preto, Mariana, São João del-Rei, Sabará e Caeté. Quem viaja pela região pode ver, na paisagem, linhas de árvores que sobem e descem os morros, quebrando a monotonia das pastagens de braquiária.

Angicos, araçás, araticuns, açoita cavalos, aroeiras, braúnas, camarás, canelas, canjeranas, cedros, copaíbas, cutieiras, embaúbas, gameleiras, gabirobas, goiabas, guanandis, ingás, ipês, jacarandás, jacarés, jatobás, jequitibás, licuranas, maçarandubas, macaúbas, mulungus, perobas, pindaíbas, pitangas, sangras-d’água, sapucaias, sassafrás, sete casacas, sobrasis, sucupiras, tabebuias, tamboris e uvaias: coleção de nomes indígenas que trazem lembranças de um tempo em que numa mesma fazenda se produziam leite, gado de corte, porcos, milho, feijão, arroz, abóbora, cana-de-açúcar, inhame, mandioca, café e as mais variadas frutas.

Meu avô plantava café na mata e nos valos. O café sombreado não produzia muito, mas tampouco demandava custosas adubações ou muitos tratos culturais. A sombra protege da geada, as folhas das árvores e gravetos em constante decomposição reciclam o solo e contribuem para sua estrutura porosa, sua umidade permanente e sua vida diversificada em fungos, bactérias, minhocas e milhares de outros pequenos seres – um verdadeiro conforto para a planta que costuma resultar em vida longa e produção continuada. Pés de café com mais de 100 anos ainda são produtivos nos quintais antigos das fazendas mineiras, nas bordas dos valos e das matas.

Nesse tempo em que se desconheciam a especialização e a economia de escala, a biodiversidade da produção era obrigatória. O manejo da matéria orgânica e a convivência harmônica com as matas naturais produziam um equilíbrio do solo que se refletia não na produção máxima por área (sofisma atual, que não leva em conta o custo real da energia não-renovável embutida nos insumos químicos), mas na produção ótima, diversificada, econômica e permanente. Era motivo de orgulho dizer que numa propriedade se comprava apenas sal e querosene.

 

 

Nos valos remanescentes nas fazendas mineiras ainda transitam caxinguelês, bugios, inhambus, jacus, micos, quatis, seriemas e muitos outros bichos. Assim como as folhas, os galhos das árvores produzem condições para a vida animal. Em fazendas produtivas de animais domesticados, dos quais se extraem leite, ovos e carne, e cuja rotina no espaço e no tempo é regida pelos horários de trabalho, os valos conformam linhas de contato com o ritmo arredio dos animais selvagens. Nesse sentido, eles separam (e colocam em contato) também duas naturezas: aquela que o homem dominou e da qual extrai alimentos e aquela que se move à nossa mercê.

Mas nos valos circulam também, vez ou outra, animais sem rabo. Atentas que são ao território e seus acidentes, as crianças enxergam nos valos possibilidades de aventura muito mais promissoras que nas tediosas pastagens, hortas ou plantações. Não é difícil imaginar a quantidade de acontecimentos inesperados que podem surgir numa caminhada dentro de um buraco comprido, envolto por árvores centenárias, preenchido por galhos em diferentes estágios de apodrecimento, atravessado por eventuais e enganosos cipós. O problema é que a chance de se encontrar um mico ou um quati convive com a de se encontrar uma jararaca, o que faz com que a brincadeira não seja bem vista pelos adultos.

Nosso colunista Euler Andrés vive em sua fazenda em Entre Rios de Minas 

Dizem que cachorro de rabo cortado não passa em pinguela. Não sei se procede, mas sei que essa pequena ponte usada para transpor o valo, assim como sua versão automotiva (o mata-burro), impede a passagem de cavalos, burros, vacas e porcos e permite ao homem com um mínimo de equilíbrio transitar, sem que precise abrir e fechar porteiras ou tranqueiras. Essas últimas, por sinal, com seus arames farpados que teimam em se embolar, viraram sinônimo de coisa incômoda, invenção do Demo.

Em tempos de condomínios fechados, a versão monocultural do valo é a cerca viva de sansão do campo. Plantadas com espaçamento de 20cm, as cercas vivas formam muros vivos e espinhentos que, embora não configurem abrigos para animais, têm a função principal de cercar a espécie humana. A diferença é que os valos evitam que os animais fujam, enquanto a cerca viva quer evitar, com a ajuda da escolta armada e das câmeras de segurança, que os humanos entrem.

Um ditado antigo diz que um cachorro vive dois tapumes, um cavalo vive três cachorros e um homem vive três cavalos. Talvez em razão da longevidade a perder de vista das nossas trincheiras de biodiversidade, o ditado não tenha sabido precisar quantos homens vive um valo.

 

 

 

Serviço:

Onde: Fazenda Luiziânia, Entre Rios de Minas, 35490-000

Instagram: @dahortaorganicos

Sitewww.dahorta.org/site/

Contato(31) 99987-4787

 

EULER ANDRÉS  (COLAB ESPECIAL)  - Agricultor orgânico, produtor de queijo, veterinário, pai, filho, avô e sonhador

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