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EULER ANDRÉS FALA SOBRE ORGÂNICOS10/12/17

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Muita gente diz que a agricultura orgânica não é produtiva. O argumento é simples: com a mesma quantidade de terra, o cultivo convencional produz muito mais. Faz sentido?

Primeiro é importante entender a diferença entre ser eficiente e ser produtivo. Segundo o Wikipedia, "eficiência é a capacidade para conseguir produtos mais elevados em relação aos insumos necessários para obtê-los." Já produtividade tem a ver com a quantidade absoluta obtida ao final. A agricultura industrial se baseia no conceito de produtividade sem levar em conta a eficiência energética. Se a produção por hectare e por homem foi alta, eles consideram a produtividade alta.

Orgânicos versus não orgânicos 

Imagine aplicar a mesma lógica para um carro. Alguém diria que os carros americanos da década de 60, com aqueles grandes motores V8 que atingiam altas velocidades em pouco segundos, eram eficientes? A "produtividade" do motor só era possível com um grande consumo de combustível. Hoje, os carros conseguem resultados melhores usando menos energia. Isso é eficiência. As geladeiras, lâmpadas, eletrodomésticos, tudo no mundo caminha para ter cada vez mais eficiência energética. Tudo menos a agricultura industrial. Nela ainda persiste a produtividade como valor máximo. Produtividade que só é possível à custa de muito combustível. Sim, é usada uma quantidade enorme de combustível fóssil na produção do nitrogênio sintético, do fósforo e do potássio solúvel que vão adubar o solo. A ineficiência é enorme. 82% do fósforo aplicado na adubação química não é aproveitado e segue direto para os rios e mares. O uso de adubos químicos inibe as micorrizas, fungos responsáveis por disponibilizar o fósforo no solo. Ou seja, o solo passa a ter dependência química do fertilizante. Imagine um motorista que fuma 3 maços de cigarro por dia, dirigindo um carro que desperdiça 82% do combustível. É o que a agricultura industrial chama de ?produtividade?.

Como diz o famoso meme do motorista de ônibus: a que ponto chegamos?

A história da agricultura convencional é uma história de guerra. Depois da 1ª Guerra, era preciso achar outro uso para o enorme excedente de nitrogênio sintético usado na confecção de explosivos. A agricultura foi a vítima. Era um cavalo de Tróia, mas os agricultores não perceberam. De um momento para o outro, uma série de medidas passou a ser desnecessária: cuidar da fertilidade biológica do solo, fazer composto, plantar leguminosas um ano antes da cultura comercial, para melhorar o solo. Imagine um ser humano que trocasse todas as recomendações de uma vida saudável (alimentar bem, fazer atividades físicas, dormir bem, não exagerar na bebida, não fumar) por comprimidos para acordar, para dormir, para não engordar, para anemia. Esta é a agricultura inorgânica.

O que já era ruim pós 1ª Guerra, virou tragédia pós 2ª Guerra. Para solucionar a ociosidade do parque industrial de explosivos, foi lançada a Revolução Verde (o nome é de uma ironia trágica) e o consumo de adubos e agrotóxicos explodiu.

Mas algo saiu errado. Em 1970 era preciso uma tonelada de adubo para produzir 48,6 T de grãos. Nos anos 2000, uma tonelada de adubo produzia apenas 11,1 T de grãos. Quatro vezes menos. Como um dependente químico, a terra passou a exigir doses crescentes de adubo. Após intoxicar os solos, o excedente teve o destino de tudo que é solúvel em água: foi para os lençóis freáticos, rios e mares, provocando zonas mortas nas mais diversas partes do mundo. Locais onde a proliferação desordenada de algas sufoca qualquer outro tipo de vida marinha. As imagens são chocantes.

Mas orgânicos são uma utopia?

Primeiro, é preciso entender como funciona a agricultura orgânica. Nela, o foco é a fertilidade biológica do solo. Não são as plantas que são alimentadas com adubo, mas sim os micro-organismos do solo. Esta técnica é uma imitação da natureza. Pegue o  exemplo da Amazônia: a exuberância da floresta em um solo pobre só se explica pela existência de uma enorme atividade de micro-organismos que degradam a celulose e restos animais, disponibilizando ao solo e às plantas os elementos químicos em pequenas doses, as em equilíbrio. As árvores devolvem a gentileza sombreando e mantendo a umidade.

Esta passagem dos elementos químicos do solo à planta, e vice-versa, ocorre com a intermediação de uma infinidade de micro-organismos, sem exageros e nem desperdícios.

No cultivo orgânico, todo o organismo é alimentado. O crescimento da planta é consequência de um ecossistema rico. A agricultura industrial (não faz sentido chamar de convencional o que nem existia 100 anos atrás) é como o Lance Armstrong. A alta performance depende do doping.

Você não respondeu: orgânicos são uma utopia?

Não e sim. Não, porque a tão alardeada produtividade é um mito. É usada uma quantidade colossal de combustível fóssil para produzir de 20% a 25% a mais por hectare. No caso da cebola, a produtividade orgânica chega a ser maior. Muita gente quer nos fazer acreditar que se fosse plantado só orgânico, a população passaria fome. A verdade é outra. Hoje, metade dos alimentos produzidos no mundo é desperdiçada. Melhorada a cadeia de distribuição e incentivando o consumo de produtos locais, o problema diminuiria muito.

Mas, se lembrarmos da definição do escritor uruguaio Eduardo Galeano, sim, comer orgânico é uma utopia: ?A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Para isso. Para que eu continue caminhando?.

 

Serviço:

Onde: Fazenda Luiziânia, Entre Rios de Minas, 35490-000

Instagram: @dahortaorganicos

Sitewww.dahorta.org/site/

Contato: (31) 99987-4787

 

 

 

EULER ANDRÉS (COLABORAÇÃO ESPECIAL) -  Agricultor orgânico, produtor de queijo, veterinário, pai, avô e sonhador.

 



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